Como investir em renda fixa: 5 fatos sobre títulos públicos e o impacto da taxa Selic

Fonte: Canal Primo Rico

O mercado de renda fixa é o pilar central do sistema financeiro nacional, influenciando desde os juros de financiamentos automotivos até a sobrevivência das empresas. Conforme exposto por Thiago Nigro, do canal Primo Rico, aproximadamente 60% do capital investido por brasileiros está alocado em renda fixa, totalizando cerca de R$ 4,7 trilhões em janeiro de 2026. No entanto, a maioria dos investidores desconhece o funcionamento técnico dessa estrutura e quem são os agentes do outro lado da operação.

A estrutura da dívida pública e o déficit fiscal

O governo brasileiro possui despesas elevadas com saúde, educação, previdência e infraestrutura. Em 2025, a arrecadação via impostos como o Imposto de Renda, ICMS e PIS/COFINS somou R$ 2 trilhões. O problema central reside no fato de o governo gastar mais do que arrecada, gerando o chamado déficit fiscal, que no ano anterior foi de R$ 61 bilhões. Para cobrir essa lacuna, o Tesouro Nacional emite títulos públicos, que funcionam como um empréstimo do investidor para o Estado em troca de juros futuros.

Dados de janeiro de 2026 indicam que o crédito ampliado ao setor não financeiro atingiu R$ 20,8 trilhões, o equivalente a 162% do PIB. Desse total, o governo é responsável por 43%, superando as dívidas de empresas (33%) e famílias (23%). Como afirma Thiago Nigro:

“Título público é um empréstimo que você faz para o governo brasileiro. Ele te promete devolver esse dinheiro lá na frente com juros. É simples assim”.

O efeito tesoura e o fenômeno do “crowding out”

O aumento da emissão de títulos públicos gera uma competição direta pelo capital disponível no mercado. Esse fenômeno, conhecido na economia como crowding out ou efeito tesoura, ocorre quando o governo absorve a liquidez do sistema financeiro para se financiar. Com títulos públicos oferecendo rentabilidades elevadas, como 14,75% ao ano com risco soberano, as instituições financeiras preferem emprestar ao governo do que para empresas ou famílias, que possuem riscos de crédito superiores.

Um estudo da USP citado por Nigro, que analisou 450 empresas ao longo de duas décadas, confirmou que quando a dívida pública sobe, o endividamento das empresas cai, pois o governo ocupa o espaço de crédito. Nas palavras do especialista:

“O governo está absorvendo a liquidez do país, está bebendo a água do poço antes que ela chegue na torneira da sua casa”.

A taxa Selic e a assimetria do crédito

A taxa Selic é o preço do dinheiro na economia brasileira e é definida pelo Copom a cada 45 dias para controlar a inflação. Quando a economia está aquecida, o Banco Central eleva a Selic para encarecer o crédito e reduzir a demanda. Atualmente, com a taxa próxima de 15% ao ano, o custo do capital atingiu níveis elevados para o consumidor final.

O sistema de crédito no Brasil é dividido em duas categorias principais: 1- Crédito direcionado: Inclui financiamento imobiliário, crédito rural e linhas do BNDES, com taxas reguladas pelo governo que não acompanham a Selic na mesma proporção. 2- Crédito livre: Engloba cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais, cujas taxas respondem diretamente à Selic.

Como o crédito direcionado não responde totalmente ao freio do Banco Central, o peso do ajuste cai desproporcionalmente sobre o crédito livre, utilizado por famílias e pequenos empreendedores. Isso explica por que o juro do cartão de crédito pode ultrapassar 400% ao ano, enquanto o financiamento imobiliário permanece em patamares muito menores.

Tipos de títulos, renda fixa estratégias de investimento

Para o investidor que deseja navegar nesse cenário, existem três tipos principais de títulos públicos no Tesouro Direto:

  • Tesouro Selic: Pós-fixado, acompanha a taxa básica de juros e permite resgate a qualquer momento sem risco de perda de capital.
  • Tesouro Prefixado: Possui taxa fixa definida no momento da compra. O valor final é sempre de R$ 1 mil por título, mas o preço de mercado oscila conforme a expectativa dos juros.
  • Tesouro IPCA+: Protege contra a inflação e oferece uma taxa de juros real. É considerado uma ferramenta poderosa para preservar e aumentar o poder de compra no longo prazo.

Rentabilidade e marcação a mercado

Existem duas formas de lucrar com esses títulos: carregar até o vencimento ou utilizar a marcação a mercado. A marcação a mercado aproveita a oscilação diária dos preços dos títulos prefixados e indexados à inflação. Quando as taxas de juros do mercado caem, o preço dos títulos antigos (com taxas maiores) sobe, permitindo a venda antecipada com lucro expressivo.

Conforme destacado por Nigro sobre as oportunidades atuais:

“A gente está numa janela muito parecida agora, taxas reais acima de 7%. As mais altas em vários anos. E se o cenário melhorar, esses títulos longos vão se valorizar”.

A análise reforça a necessidade de diversificação na renda fixa, incluindo CDBs, LCIs e debêntures, adaptando a carteira conforme o cenário econômico e os objetivos de prazo do investidor.

Read Previous

Passo a passo para negociar dívidas e organizar as finanças pessoais

Read Next

Cartão de crédito: como dividir gastos fixos e diários para sair das dívidas